Skip to main content

Joby faz 1º voo 100% autônomo de 5.148 km nos EUA

5 min de leituraLucas Buzzo
Joby faz 1º voo 100% autônomo de 5.148 km nos EUA
Também disponível em inglês

A Joby Aviation completou, em 18 de setembro de 2026, o primeiro voo totalmente autônomo de costa a costa nos Estados Unidos: 5.148 km entre a Califórnia e a Carolina do Norte, sem nenhum toque do piloto nos comandos. A aeronave, um Cessna Caravan modificado chamado J208, decolou, navegou e pousou sozinha em todas as etapas da rota, usando software de autonomia que a Joby adquiriu da startup Xwing em 2024.


Da eVTOL ao avião de carga autônomo

A Joby é mais conhecida pelo seu eVTOL (decolagem e pouso vertical elétrico) com piloto a bordo, o táxi aéreo que está em processo de certificação de tipo na aviação civil dos EUA e já realiza voos de demonstração sobre Dallas-Fort Worth. O J208 é uma frente separada: em vez de uma aeronave nova, a empresa reaproveitou um Cessna 208B Grand Caravan de 1993 — modelo certificado desde 1984 — e instalou por cima dele uma pilha completa de autonomia.

Essa tecnologia vem da Xwing, startup comprada pela Joby em junho de 2024 especificamente por seu software de voo de carga autônomo. Antes da travessia dos EUA, o sistema já somava mais de 400 voos e 800 horas de operação automatizada, incluindo três exercícios com as Forças Armadas dos EUA. O J208 ainda opera sob um certificado experimental da FAA — categoria de pesquisa e desenvolvimento que permite testes, mas não serviço comercial de carga ou passageiros.


Os 5.148 km da rota "Electric Skies"

O voo foi o trecho principal da turnê "Electric Skies", iniciada em março de 2026 sobre a baía de São Francisco e que passa por dez estados americanos. O J208 saiu do Buchanan Field, em Concord (Califórnia), e encerrou a etapa no Dare County Regional Airport, nos Outer Banks da Carolina do Norte — 3.199 milhas (5.148 km) no total, com três paradas no caminho.

TrechoParadaEstado
1Buchanan Field, ConcordCalifórnia
2Phoenix Deer Valley AirportArizona
3Fort Worth Alliance AirportTexas
4Shaw Air Force BaseCarolina do Sul
5Dare County Regional AirportCarolina do Norte

No caminho, o J208 fez uma passagem baixa perto do Wright Brothers National Memorial, em Kitty Hawk — local do primeiro voo motorizado da história, em 1903. Segundo a Joby, a turnê segue para Raleigh, a região de Washington D.C., Louisville, Wichita, Oklahoma City, Salt Lake City e Portland antes de a aeronave retornar à Califórnia.


Quão autônomo foi o voo, na prática?

Um piloto de segurança ficou na cabine por exigência regulatória, mas a Joby afirma que ele não tocou nos comandos em nenhum momento. Quem supervisionou o voo foi um Piloto Remoto em Comando, operando da sede de autonomia da Joby na Califórnia e, em parte da rota, da Shaw Air Force Base — a até 3.738 km de distância da aeronave. O J208 decolou, navegou em rota, lidou com tráfego intenso no aeroporto de Phoenix Deer Valley e desviou de mau tempo em tempo real, tudo sem intervenção humana direta.

"Essa jornada pelos Estados Unidos é um vislumbre de uma nova era da aviação", disse JoeBen Bevirt, fundador e CEO da Joby, no anúncio da empresa. "A autonomia tem um papel importante no futuro do voo, permitindo conectar comunidades remotas, entregar suprimentos críticos, responder mais rápido a desastres, apoiar operações militares e manter pilotos fora de perigo."

A Joby projeta o J208 para transporte médico, resposta a desastres, logística de defesa e carga comercial — mercados distintos do táxi aéreo com passageiros que é o foco público da empresa, mas que dependem da mesma tecnologia de base: reduzir o quanto um humano precisa pilotar diretamente a aeronave. A empresa já tem um contrato de US$ 17 milhões com a Força Aérea dos EUA via AFWERX e descreve uma "relação de longa data" com o Departamento de Defesa americano.


O que muda para o piloto brasileiro

O J208 não é um drone e não voa no Brasil, mas o feito importa para quem opera VANTs no país porque mostra, em escala real e por milhares de quilômetros, exatamente a capacidade que a regulamentação brasileira de BVLOS tenta acompanhar: uma aeronave voando além do alcance visual do piloto, supervisionada remotamente em vez de pilotada diretamente. Hoje, no Brasil, uma operação BVLOS passa por análise específica de ANAC e DECEA via SARPAS — não existe ainda uma via padronizada de autorização automática para autonomia desse nível, seja em drones, seja em eVTOL.

A ANAC já sinalizou a direção: o novo RBAC nº 100 e a ICA 100-40 do DECEA, em vigor desde 1º de julho de 2026, organizam as operações por nível de risco (Aberta, Específica e Certificada) — estrutura pensada justamente para abrir espaço, com o tempo, a voos mais autônomos e de maior alcance. O avanço da Joby não muda regra nenhuma no Brasil agora, mas é o tipo de dado técnico — mais de 800 horas de voo automatizado documentadas — que reguladores em todo o mundo, incluindo a ANAC, tendem a observar ao desenhar as próximas fases da liberação de BVLOS e do ecossistema de eVTOL no país.



Fontes: Joby Aviation | TechCrunch