Skip to main content

Drones armados: Comando Vermelho fez 16 ataques no Brasil

5 min de leituraLucas Buzzo
Drones armados: Comando Vermelho fez 16 ataques no Brasil

O Comando Vermelho registrou pelo menos 16 ataques com drones armados no Brasil entre junho de 2025 e agosto de 2026, segundo o ACLED. O grupo mirou milícias rivais no Rio de Janeiro e ampliou a tática para o Ceará. A CNN destacou o dado em 9 de setembro, dias após a Operação Contenção nas favelas cariocas.

O levantamento é do Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), organização que monitora conflitos armados no mundo todo, e foi divulgado em relatório assinado pelo pesquisador Tiziano Breda em 27 de agosto de 2026. Segundo o documento, a América Latina teve cerca de 670 eventos envolvendo drones armados desde 2018 — mas 72% deles aconteceram só entre 1º de janeiro de 2025 e 21 de agosto de 2026, um salto que os pesquisadores atribuem à difusão de táticas vistas na guerra da Ucrânia e ao custo cada vez menor de drones comerciais adaptados para carregar explosivos.


Como o crime organizado chegou aos drones armados

A escalada não é exclusividade brasileira. Colômbia é o epicentro regional: 97 dos 182 municípios latino-americanos com registros de drones armados ficam no território colombiano, a maior parte no departamento de Cauca, com difusão para Norte de Santander, Antioquia, Chocó, Nariño e Bolívar — regiões concentradas em enclaves de cultivo de coca e corredores de tráfico. O ACLED contabiliza 19 grupos armados colombianos já usando a tática em 2026.

No México, o fenômeno atinge 17 dos 32 estados, com concentração em Michoacán, Guerrero e Sinaloa. "Houve claramente um aumento no México. De drones pequenos usados para vigilância... para modelos maiores e mais sofisticados, com maior capacidade de carga, aos quais se prendem explosivos", disse David Mora, analista do International Crisis Group, à CNN. Já Paddy Ginn, da Global Initiative Against Transnational Organized Crime, afirma que os grupos criminosos "estão prestando atenção às táticas do conflito na Ucrânia" — não necessariamente importando equipamento militar, mas aprendendo com o que veem circular.

O Equador registra 8 eventos desde 2023, a maioria mirando alas de presídios onde lideranças de facções estão detidas. Já a Venezuela teve seu primeiro caso confirmado em agosto de 2026, sinal de que a tática segue se espalhando pelo continente.


O que o ACLED encontrou no Brasil

No Brasil, o primeiro ataque com drone armado mapeado pelo ACLED é de junho de 2025, e o Comando Vermelho (CV) aparece como o principal ator por trás dos 16 casos contabilizados até agosto de 2026. Os alvos preferenciais são milícias rivais nas comunidades das zonas Norte e Oeste do Rio de Janeiro, mas o relatório também identifica ataques no Ceará — reforçando um padrão que a Foreign Policy já havia documentado em agosto, quando revelou ao menos oito ataques de facções brasileiras com drones-granada.

Os pesquisadores do ACLED projetam que a tática deve se espalhar para Mato Grosso do Sul, Bahia e Minas Gerais nos próximos 12 a 24 meses — estados que já registram apreensões frequentes de drones usados para abastecer presídios com celulares e drogas, mas ainda não ataques armados confirmados.

O caso que expôs o problema para o grande público foi a Operação Contenção, deflagrada em outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. Cerca de 2.500 policiais, militares e atiradores de elite participaram da ação contra o CV, que terminou com dezenas de mortos. Durante a operação, uma bomba lançada por drone chamou atenção internacional para o uso desse tipo de arma pelo crime organizado em ambiente urbano — o mesmo episódio citado pela CNN como ponto de virada na cobertura internacional sobre o tema.


O que muda para o piloto brasileiro

O crescimento de ataques com drones armados por facções tende a acelerar duas frentes regulatórias que já pressionam o piloto civil no Brasil: mais restrição de espaço aéreo perto de comunidades e operações policiais, e mais rigor na fiscalização de quem voa sem cadastro no SISANT ou autorização no SARPAS. Operadores comerciais e hobistas que atuam perto de áreas com histórico de conflito armado — regiões metropolitanas do Rio, do Ceará e, possivelmente em breve, de Mato Grosso do Sul, Bahia e Minas Gerais — podem enfrentar zonas de exclusão temporária (NOTAM) durante operações policiais, além de abordagens mais desconfiadas de agentes de segurança em voos legítimos.

O tema também alimenta o debate sobre o PL 3611/2021, que trata da autorização de drones armados para uso policial e pode ser votado pela Comissão de Segurança Pública do Senado ainda em 2026. Quanto mais casos como os mapeados pelo ACLED se acumulam, maior a pressão por uma resposta legislativa rápida — o que pode incluir também regras mais duras de rastreabilidade (Remote ID) para toda a frota registrada, hoje em 177 mil unidades segundo a própria ANAC. Antes de cada voo perto de áreas urbanas sensíveis, vale a pena checar zonas restritas no SARPAS e na AISWEB para evitar autuação e confusão com uso indevido.



Fontes: ACLED — Drones are re-shaping armed group warfare in Latin America | CNN, via KVIA