Skip to main content

ANAC registra 177 mil drones; Senado cobra incentivo

5 min de leituraLucas Buzzo
ANAC registra 177 mil drones; Senado cobra incentivo

O Brasil já tem 177 mil drones registrados na ANAC, com cerca de 10 mil novos cadastros por mês, segundo dados apresentados em audiência pública no Senado em 8 de setembro de 2026. A frota é usada em agricultura, saúde pública, segurança e defesa nacional — mas especialistas ouvidos pela Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) dizem que o Brasil ainda não tem uma estratégia industrial para o setor.


O que foi discutido na audiência

A audiência pública foi solicitada pelo senador astronauta Marcos Pontes (PL-SP) e reuniu representantes da ANAC, da Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC/MPOR), da Força Aérea Brasileira (FAB) e de empresas do setor, entre elas a ABDrone (Associação Brasileira das Empresas de Drones), a SkyDrones Technology e a Speedbird Aero.

O ponto de partida foi o crescimento acelerado da frota nacional. Em março de 2026, o Anuário ABDrone já apontava 133 mil drones cadastrados na ANAC; seis meses depois, esse número saltou para 177 mil — um avanço de 33% no período, puxado por cerca de 10 mil novos registros por mês em plataformas como o SISANT.

Esse ritmo é bem mais rápido do que o crescimento anual de cerca de 20% registrado até o início de 2026. Parte da aceleração é atribuída à entrada em vigor do RBAC 100 em julho, que tornou o cadastro obrigatório para praticamente toda a frota — incluindo operadores que antes driblavam o registro por desconhecimento das regras ou por operar equipamentos usados apenas ocasionalmente.


Brasil lidera a América Latina, mas fica atrás de China e EUA

Apesar do ritmo de crescimento, o Brasil ainda está longe das maiores frotas do mundo. A China soma 3,29 milhões de drones civis registrados — 18 vezes o total brasileiro —, enquanto a América do Norte já passa de 855 mil unidades cadastradas.

Região/paísDrones registradosPosição
China~3,29 milhões1º lugar global
América do Norte855 mil+
Brasil177 milLíder na América Latina

Segundo os debatedores, o Brasil responde por cerca de 62% do valor de mercado de drones na América Latina, mas o crescimento da frota esbarra em obstáculos estruturais que, segundo eles, freiam a indústria nacional em relação aos concorrentes globais.


Os obstáculos apontados pelo setor

Júlia Lopes da Silva Nascimento, diretora de Planejamento e Fomento da SAC/MPOR, listou os principais entraves ao crescimento da indústria nacional de drones:

  • Carga tributária elevada sobre equipamentos e componentes importados
  • Falta de incentivo à cadeia produtiva nacional
  • Escassez de mão de obra especializada
  • Financiamento de pesquisa e desenvolvimento (P&D) insuficiente
  • Acesso limitado a crédito para pequenas empresas do setor
  • Ausência de uma estratégia nacional coordenada para drones

Pedro Curcio Júnior, presidente da ABDrone, defendeu a criação de um Programa Nacional de Drones com redução de impostos sobre peças e equipamentos, apoio a pequenos empreendedores e mais recursos para pesquisa. O major-brigadeiro Frederico Casarino, da FAB, resumiu o argumento pela autonomia tecnológica: "o melhor parceiro do Brasil é o próprio Brasil", defendendo menor dependência de tecnologia estrangeira.

O senador Marcos Pontes propôs a criação de uma frente parlamentar para acompanhar o tema no Congresso, e os participantes reforçaram a necessidade de integração entre ANAC, DECEA (controle do espaço aéreo) e Anatel (telecomunicações) para acompanhar a expansão da frota com segurança.

A audiência também reuniu representantes da iniciativa privada, como Ulf Bogdawa, CEO da SkyDrones Technology, e Manoel Coelho, CEO e cofundador da Speedbird Aero — startup brasileira de entrega por drone —, levando ao Senado a perspectiva de quem já opera frotas comerciais no país e convive diretamente com a burocracia de importação e certificação de equipamentos.


O que muda para o piloto brasileiro

Para quem já opera ou pretende registrar um drone, a audiência não trouxe mudanças imediatas nas regras — o RBAC 100, em vigor desde julho de 2026, continua sendo a norma vigente para cadastro no SISANT e autorização de voo no SARPAS. O que muda é o sinal político: com 177 mil drones já registrados e 10 mil novos por mês, a pressão por um marco legal específico e por incentivos fiscais tende a aumentar nos próximos meses.

Na prática, isso pode significar equipamentos nacionais mais competitivos e menor dependência de importados a médio prazo, além de mais atenção do Congresso a temas como treinamento e certificação de pilotos. Para quem ainda não regularizou o próprio drone, vale lembrar que o cadastro na ANAC é obrigatório para aeronaves acima de 250 g e gratuito, e que ele é o primeiro passo antes de solicitar autorizações de voo pontuais ou recorrentes no SARPAS.

Para quem opera comercialmente — em pulverização agrícola, inspeção, mapeamento ou segurança —, os números apresentados no Senado reforçam um sinal de mercado: a fiscalização tende a ficar mais rigorosa à medida que a frota cresce e ganha visibilidade política, o que torna a regularização completa (cadastro, autorização de voo e, quando aplicável, licença de operador) cada vez menos opcional na prática.



Fontes: Senado Notícias | Revista Sociedade Militar