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Motorola compra tecnologia antidrone por US$ 1,5 bi

5 min de leituraLucas Buzzo
Motorola compra tecnologia antidrone por US$ 1,5 bi
Também disponível em inglês

A Motorola Solutions concluiu, em 20 de agosto de 2026, a compra da israelense D-Fend Solutions por US$ 1,5 bilhão, incorporando ao seu portfólio de segurança pública uma tecnologia que assume o controle de drones não autorizados em pleno voo e os pousa em local seguro, sem derrubá-los ou embaralhar sinais de rádio próximos.


Contexto: por que empresas de segurança estão de olho nos drones

O mercado de tecnologia antidrone — também chamado de C-UAS (counter-unmanned aircraft systems) — existe para detectar, rastrear e neutralizar aeronaves não autorizadas sobre aeroportos, estádios, presídios, bases militares e outras áreas sensíveis. A demanda cresceu junto com a popularização de drones baratos e capazes, que se tornaram tanto um incômodo de segurança quanto, em casos documentados, uma arma.

O Brasil vive essa realidade de perto. O Aeroporto de Guarulhos teve voos suspensos após a presença de drones não autorizados perto da pista, e facções do Rio de Janeiro já usam aparelhos aéreos tanto para vigiar ações policiais quanto para lançar explosivos contra rivais. Diante desse cenário, o governo federal já estuda exigir sistemas antidrone obrigatórios em aeroportos estratégicos, e São Paulo lançou, em julho, a primeira rede de detecção de drones do país para apoiar o combate ao crime organizado.


Como funciona o sequestro de sinal por radiofrequência

A D-Fend foi fundada para resolver o problema de drones intrusos sem o risco colateral de atirar neles. Sua plataforma, chamada EnforceAir, usa uma técnica de sequestro cibernético por radiofrequência (RF): em vez de embaralhar amplamente o sinal do drone (jamming) ou disparar um projétil contra ele, o sistema intercepta e assume o link de controle do aparelho, guiando-o até um ponto de pouso pré-definido.

Segundo a empresa, essa abordagem evita interferir no Wi-Fi, na telefonia celular ou no tráfego de drones autorizados que estejam próximos — um risco real quando se usa jamming de espectro amplo, técnica ainda comum em sistemas antidrone mais antigos. O EnforceAir já opera em aeroportos, infraestrutura crítica, estádios, bases militares e pontos de segurança de fronteira em mais de 30 países.


Bastidores do negócio: valores, histórico e liderança

A Motorola anunciou a intenção de compra em 1º de junho de 2026, em uma operação totalmente em dinheiro, e fechou a transação em 20 de agosto — antes do prazo inicialmente previsto para o quarto trimestre. Segundo o anúncio da própria Motorola, a D-Fend deve faturar cerca de US$ 185 milhões em 2026, após crescer mais de 50% ao ano nos últimos três anos.

Zohar Halachmi, CEO da D-Fend, permanece à frente da nova unidade de negócios antidrone da Motorola, agora como vice-presidente sênior da área. "Entrar para a Motorola marca um novo e empolgante capítulo. Planejamos crescer mais rápido e transformar a proteção do espaço aéreo em todo o mundo", disse Halachmi em comunicado conjunto das duas empresas.

Já o CEO da Motorola, Greg Brown, tratou o negócio como uma extensão natural do braço de rádio, vídeo e despacho da empresa para o espaço aéreo acima do território que ela já protege em terra: "Segurança no solo exige segurança no ar. A tecnologia da D-Fend, comprovada em campo, é um complemento poderoso ao nosso ecossistema." A aquisição amplia uma estratégia que a Motorola já vinha construindo desde a compra de US$ 4,4 bilhões da Silvus, fabricante de rádios táticos, posicionando a empresa para disputar os dois lados do mercado de drones — tanto operação quanto neutralização.

O setor de contradrone faturou US$ 2,47 bilhões em 2026 e a projeção é que chegue a US$ 8,42 bilhões em cinco anos, segundo dados citados pela Motorola no anúncio da aquisição.


O que muda para o piloto brasileiro

Para quem voa dentro das regras — seja com registro no SISANT ou autorização prévia pelo SARPAS —, essa negociação bilionária não altera nada na legislação brasileira nem impõe nova exigência imediata. Mas ela sinaliza uma tendência clara: a capacidade de detecção e resposta a drones não autorizados está se profissionalizando rapidamente no mundo todo, e o Brasil já caminha na mesma direção, com o próprio governo estudando exigir sistemas antidrone em aeroportos estratégicos depois dos episódios recorrentes em Guarulhos.

Na prática, isso reforça um ponto que pilotos comerciais já deveriam levar a sério: verificar zonas de restrição antes de cada voo deixou de ser apenas uma exigência formal. Consultar as zonas proibidas para voar drone — aeroportos, presídios, áreas condicionadas — reduz o risco de acionar, sem querer, um sistema automatizado de detecção que hoje já opera em mais de 30 países e que tende a chegar também a instalações críticas brasileiras nos próximos anos.

Para o mercado nacional de segurança e tecnologia, o movimento da Motorola também é um sinal de oportunidade: empresas brasileiras que atuam com detecção de drones, como as por trás da rede paulista lançada em julho, competem agora em um setor que atraiu bilhões de dólares em fusões e aquisições só em 2026.



Fontes: Motorola Solutions | DroneLife