
Exército adota DJI Matrice 300 RTK como drone padrão
O Exército Brasileiro formalizou o DJI Matrice 300 RTK como drone padrão da Força Terrestre. A Portaria nº 2.660/2026, emitida pelo Comando do Exército, oficializa uma plataforma fabricada pela chinesa DJI para uso em operações de reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos — as chamadas missões IRVA (Inteligência, Reconhecimento, Vigilância e Aquisição de Alvos).
A decisão foi revelada em análise publicada nesta semana pelo Coronel Leonardo RC Araujo, da LRCA Defense Consulting, especializada em defesa. Ela ocorre precisamente quando os Estados Unidos, a Austrália, a Índia e o Japão aceleram o movimento contrário: banir os drones da DJI de arsenais e redes governamentais por suspeita de espionagem a serviço de Pequim.
O que é o DJI Matrice 300 RTK
O Matrice 300 RTK é o modelo mais avançado da linha enterprise da DJI, projetado para operações profissionais de longa duração. Fabricado em Shenzhen, China, o drone possui até 55 minutos de autonomia de voo, alcance de transmissão de 15 km e posicionamento RTK (Real-Time Kinematic, ou Cinemática em Tempo Real) com precisão centimétrica.
Principais especificações técnicas:
| Especificação | Valor |
|---|---|
| Autonomia de voo | Até 55 minutos |
| Alcance de transmissão | 15 km |
| Precisão RTK | Centimétrica |
| Capacidade de carga | Até 2,7 kg de payload |
| Temperatura de operação | -20 °C a +50 °C |
| Detecção de obstáculos | Seis direções |
Na configuração típica das Forças Armadas, o drone opera com o payload Zenmuse H20T: câmera de zoom 20x, sensor térmico, telêmetro a laser e câmera wide, tudo em uma única cabeça giratória estabilizada. O conjunto permite identificar alvos a distâncias seguras, com baixo risco ao operador.
O Exército já utilizava o Matrice 300 RTK desde pelo menos 2022, quando adquiriu quatro unidades para experimentação doutrinária, ao lado de 30 unidades do DJI Mavic 2 Enterprise. A portaria de 2026 não representa uma estreia, mas a institucionalização formal da plataforma como equipamento padrão da Força Terrestre.
O paradoxo geopolítico
A formalização ocorre em um momento de crescente pressão internacional contra a DJI. Em dezembro de 2025, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) adicionou drones estrangeiros à sua "Lista Coberta" — equipamentos considerados risco à segurança nacional —, bloqueando novas autorizações para produtos DJI no mercado americano.
Em fevereiro de 2026, a DJI entrou com ação judicial no Nono Circuito dos EUA para tentar reverter a decisão, alegando perdas projetadas de US$ 1,56 bilhão em vendas ao longo do ano. A empresa nega as acusações e destaca recursos como o "Modo de dados local", que impede o envio de informações a servidores externos.
A base legal da desconfiança ocidental está na Lei de Inteligência Nacional da China de 2017, que obriga empresas e cidadãos chineses a cooperar com os serviços de segurança do Estado quando solicitado. Nenhum caso comprovado de espionagem via DJI foi tornado público, mas o risco potencial é suficiente para nações como EUA, Austrália e Índia banirem o uso das plataformas em contextos militares e governamentais.
O Brasil, ao seguir o caminho oposto, explicita uma posição estratégica distinta: a avaliação de custo-benefício operacional prevaleceu sobre as preocupações de soberania de dados.
Alternativas que o Brasil preteriu
O relatório do Coronel Araujo lista as alternativas ocidentais disponíveis no mercado:
- Parrot ANAFI USA (França): opera completamente offline, sem envio de dados à nuvem, aprovado pelo Pentágono para uso militar.
- Skydio X10D (EUA): integra inteligência artificial embarcada para navegação autônoma e consta da Blue UAS Cleared List do Departamento de Defesa americano.
No cenário nacional, o Brasil conta com fabricantes capacitados para atender demandas militares:
- XMobots: desenvolve os drones Nauru 100D (UCAV), Nauru 500C ISR e Nauru 1000C, todos com foco em missões táticas e armazenamento local de dados.
- SkyDrones: plataformas personalizadas com gestão de dados 100% em infraestrutura nacional.
- Stella Tecnologia: produz os modelos Atobá e Albatroz Vortex, com turbina 100% nacional.
A opção pela DJI reflete, segundo analistas, a maturidade operacional e o custo mais baixo frente às alternativas — especialmente em um momento de orçamento de defesa pressionado. O analista caracteriza a decisão como um "paradoxo entre dependência e soberania tecnológica": o Brasil investe em desenvolvimento doméstico de drones militares enquanto consolida o uso de uma plataforma chinesa para missões sensíveis. Para uma análise mais ampla sobre as implicações do uso militar de drones, o ODrones publicou um texto sobre drones militares e o Direito Internacional Humanitário.
O que muda para o piloto brasileiro
Para pilotos civis, a Portaria nº 2.660/2026 não gera impacto direto. A decisão é estritamente institucional e diz respeito ao inventário de equipamentos da Força Terrestre.
O que o episódio revela é relevante para quem acompanha o mercado: a DJI mantém forte penetração no Brasil — tanto no segmento civil quanto, agora formalmente, no militar —, mesmo diante de pressões externas que levaram outras nações a abandonar a marca.
Para pilotos que consideram equipamentos profissionais para missões de inspeção, segurança ou mapeamento, vale acompanhar o debate em curso sobre privacidade de dados. O guia completo de drones DJI explica as diferenças entre cada linha do fabricante e os recursos de segurança disponíveis em cada modelo.
A tendência de curto prazo aponta para uma divisão no Brasil: adoção crescente de plataformas nacionais para contextos de maior criticidade de dados e manutenção da DJI como opção dominante para operações de menor sensibilidade.
Fontes: LRCA Defense Consulting | DroneDJ — DJI FCC US Launch Loss | DroneXL — DJI Ninth Circuit
Mais como este
Artigos Relacionados

DJI revela 25 lançamentos bloqueados pela FCC em 2026
DJI revelou em processo judicial que 25 produtos de 2026 estão barrados nos EUA, com prejuízo de US$ 1,56 bilhão. Entenda o que mu…

ICA 100-40: DECEA exige autorização para todos os drones
O DECEA publicou a nova ICA 100-40, que obriga autorização via SARPAS para todos os drones no Brasil a partir de 1º de julho de 20…

XMobots apresenta drone de combate reutilizável na LAAD
A XMobots apresentou na LAAD 2026 o Nauru 100D UCAV, drone de combate que retorna à base após o ataque e pode ser rearmado, testad…