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Eve 100: ANAC Define Regras de Ruído do Carro Voador

5 min de leituraLucas Buzzo
Eve 100: ANAC Define Regras de Ruído do Carro Voador

A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) abriu, em 19 de julho de 2026, consulta pública sobre os critérios técnicos de ruído do Eve 100, o "carro voador" elétrico da Eve, subsidiária da Embraer. A proposta fixa um limite de aproximadamente 15 decibéis a 150 metros de altura em operação normal — próximo do som de um sussurro — e é a primeira certificação ambiental do país voltada a uma aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical.


Por que a ANAC está regulando o ruído agora

O eVTOL (Electric Vertical Take-Off and Landing, decolagem e pouso vertical elétrico) é uma categoria de aeronave que decola como helicóptero e depois voa como avião, mas com propulsão 100% elétrica. Diferente de um drone, que é não tripulado e voltado a carga ou imagem, o Eve 100 é projetado para transportar passageiros — o que explica por que o ruído virou etapa formal de certificação e não apenas um detalhe técnico.

O barulho é o principal obstáculo social para operar esse tipo de aeronave sobre áreas densamente povoadas. Um helicóptero convencional pode passar de 80 decibéis em sobrevoo baixo; o padrão proposto pela ANAC para o Eve 100 é dezenas de vezes mais silencioso, o que a agência considera pré-requisito para autorizar rotas urbanas em cidades como São Paulo.

A consulta pública, aberta até 8 de agosto de 2026, permite que fabricantes, operadores e a sociedade civil enviem contribuições antes de a ANAC fechar a versão final da norma. Segundo a agência, os critérios foram construídos a partir de meses de engajamento técnico entre reguladores e a própria Eve, adaptando regras de ruído aeronáutico já existentes às características específicas de decolagem e pouso vertical elétrico.


Os números da proposta

ParâmetroValor propostoReferência de comparação
Nível de ruído≈ 15 decibéisSom de um sussurro
Distância de medição150 metros do soloAltura típica de sobrevoo urbano
Condição de testeOperação normal em vooSem manobras de emergência
Prazo da consultaAté 8 de agosto de 2026Aberta a fabricantes e sociedade civil

Segundo Johann Bordais, CEO da Eve, "a publicação da ANAC da proposta dos critérios de ruído é um marco importante" no desenvolvimento e na certificação do Eve 100. A agência afirma que o texto é resultado de meses de diálogo técnico com a fabricante, o que deve reduzir o risco de mudanças bruscas na fase final da norma.


O momento coincide com avanços nos testes de voo

A consulta pública sai dias depois de a Eve apresentar, na Farnborough International Airshow 2026, no Reino Unido, o andamento da campanha de testes do protótipo em escala real. Desde o primeiro voo, em dezembro de 2025, a aeronave já completou dezenas de voos de pouso e decolagem vertical, e a empresa prevê iniciar ainda neste trimestre as primeiras transições parciais — quando o eVTOL passa do voo pairado para o voo com sustentação pelas asas, fase crítica de qualquer certificação. Transições completas estão previstas para o restante de 2026, e a produção de seis protótipos de configuração final deve começar no mesmo período.

O mercado já reflete essa maturidade. A carteira de pedidos da Eve soma cerca de 2.700 intenções de compra em todo o mundo, incluindo o primeiro contrato firme da empresa: até 50 aeronaves para a Revo, operadora de mobilidade aérea urbana sediada em São Paulo e controlada pela Omni Helicopters International, em acordo avaliado em cerca de US$ 250 milhões. A Revo pretende ser a pioneira na operação comercial do Eve 100 no Brasil, com primeira entrega prevista para o quarto trimestre de 2027.


O que muda para o piloto brasileiro

O eVTOL não substitui o drone nem é regulado pelo SISANT ou pelo SARPAS — é uma aeronave tripulada, com licença própria em discussão na ANAC, a categoria VCA (VTOL Capable Aircraft). Ainda assim, três pontos interessam diretamente a quem trabalha ou pilota drones no Brasil hoje:

  1. A ANAC está construindo, peça por peça, o arcabouço regulatório da mobilidade aérea urbana — o mesmo guarda-chuva que deve, nos próximos anos, organizar a integração entre drones de carga, táxis aéreos e o espaço aéreo tripulado tradicional, incluindo faixas de altitude e corredores compartilhados.
  2. O padrão de ruído do Eve 100 pode influenciar futuras regras para drones de entrega de grande porte, como os que já pedem certificação de voo BVLOS no país — a lógica de "silêncio como pré-requisito de operação urbana" tende a se espalhar para outras categorias de aeronave não tripulada.
  3. Operadores comerciais de drone que atuam em inspeção, mapeamento ou logística devem observar o cronograma da Eve como sinal de mercado: se a Revo cumprir a meta de operação a partir de 2027 em São Paulo, cidades brasileiras vão precisar de infraestrutura de pouso, gestão de tráfego aéreo urbano e integração com sistemas como o BR-UTM — o mesmo sistema que já começa a liberar autorizações instantâneas de voo BVLOS para drones.

Para quem acompanha o setor de eVTOL e táxis aéreos no Brasil, a consulta de ruído é mais um passo concreto rumo às primeiras operações comerciais, que a Eve e a ANAC ainda projetam para dentro desta década.


Fontes: Agência Brasil | Eve Air Mobility

Foto: Ricardo Stuckert/PR (Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)