
BVLOS no Brasil: como voar além da linha de visada em 2026
A Agência Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) sinalizou, durante a Conferência Nacional DRONERESPONDERS realizada em 10 de março de 2026, que está acelerando a aprovação da regulamentação definitiva para voos BVLOS (Beyond Visual Line of Sight — além da linha de visada visual). A proposta, conhecida como Parte 108, está sob revisão no Departamento de Transportes americano, e o secretário Sean Duffy indicou preferência por finalização rápida. No mesmo período, o Brasil deu seu próprio primeiro passo: a ANAC aprovou, em 12 de fevereiro de 2026, as operações BVLOS com o DJI Dock 2 e a série Matrice 3D no território nacional.
Os dois movimentos apontam na mesma direção: o futuro dos drones profissionais é autônomo, além do campo de visão do piloto — e a janela regulatória está se abrindo.
O que é BVLOS e por que importa
BVLOS (Beyond Visual Line of Sight) designa qualquer voo em que o piloto remoto não consegue manter o drone dentro do seu alcance visual direto. Hoje, a regra padrão no Brasil e na maioria dos países exige que o piloto veja o drone a olho nu durante toda a operação — uma limitação que restringe distâncias, escalabilidade e automação.
Superar essa barreira é o que torna possível:
- Inspeções de linhas de transmissão ao longo de centenas de quilômetros sem reposicionamento constante do operador
- Monitoramento agrícola de grandes propriedades com um único drone operando sozinho
- Entrega por drone entre regiões ou entre condomínios e centros de distribuição
- Operações de busca e resgate em áreas remotas sem visibilidade direta
Nos EUA, a FAA estima que as operações BVLOS representarão a maior parte do valor econômico gerado por drones comerciais nos próximos anos. No Brasil, a regulamentação de drones ainda proíbe BVLOS por padrão — mas já começa a abrir exceções controladas.
A Parte 108 nos EUA: o que a FAA está construindo
A proposta de regulamentação BVLOS da FAA (denominada Parte 108) foi publicada para consulta pública em agosto de 2025 e recebeu mais de 3.000 comentários da indústria. A regra:
- Substitui o sistema de waivers (autorizações caso a caso, que levam meses) por um framework de aprovações padronizadas
- Cria duas categorias: operações de baixo risco (permissão simplificada) e de alto risco (certificado operacional com obrigações organizacionais)
- Exige sistemas detect-and-avoid, Remote ID, rastreamento contínuo de posição e integração com sistemas UTM (gestão de tráfego de drones)
- Abrange drones de até 1.320 libras (~600 kg), cobrindo praticamente toda a categoria profissional
Na conferência DRONERESPONDERS, a diretora executiva da Commercial Drone Alliance, Lisa Ellman, reconheceu a sensibilidade do momento: "Havia coisas que poderiam nos levar para trás. Esta regra deve nos levar para frente."
A previsão é que a regra final seja publicada ainda em 2026, com implementação de 6 a 12 meses após a publicação.
Brasil: ANAC aprova o DJI Dock 2 para voos BVLOS
Em 12 de fevereiro de 2026, a ANAC concedeu Autorização de Projeto para o DJI Dock 2 e a série Matrice 3D/3TD, habilitando oficialmente esses equipamentos para operações BVLOS em território nacional. É a primeira autorização desse tipo para um sistema de drone autônomo com estação de carregamento remoto no Brasil.
Na prática, o sistema funciona assim: o DJI Dock 2 é uma base de carregamento autônoma instalada no campo — em uma fazenda, subestação elétrica, mina ou área industrial. O drone decola, executa a missão e retorna automaticamente para recarga, sem intervenção humana no local. Um único operador pode supervisionar várias missões simultaneamente, de qualquer lugar.
Os modelos aprovados têm aplicações complementares:
| Modelo | Câmera principal | Uso típico |
|---|---|---|
| Matrice 3D | Mecânica (precisão) | Mapeamento, topografia |
| Matrice 3TD | Térmica + zoom | Inspeção, segurança |
Para operar legalmente no Brasil com esse sistema, o operador precisa de:
- CAER (Certificado de Aeronavegabilidade Especial para RPA) para cada aeronave
- Licença de piloto remoto com habilitação válida e CMA classe 3
- Autorização DECEA/SARPAS conforme a ICA 100-40
- Seguro RETA e análise de risco operacional atualizada
O sistema mapeamento aéreo com drone é uma das aplicações imediatas que mais se beneficiam desta aprovação — áreas extensas, como propriedades rurais de milhares de hectares, poderão ser mapeadas com precisão sem a presença física de um operador em campo.
O que muda para o piloto brasileiro
Para quem opera com drones de maneira profissional, a autorização BVLOS da ANAC para o DJI Dock 2 abre um novo mercado — mas com requisitos claros que exigem preparo.
O que já é possível hoje: Operações BVLOS com DJI Dock 2 + Matrice 3D, mediante aprovação individual de cada rota pelo SARPAS. O processo ainda não é automático — cada missão ou área de operação precisa de autorização prévia do DECEA, com prazo de análise de até 12 dias corridos.
O que ainda não é possível: Operações BVLOS genéricas com qualquer drone. A autorização se aplica especificamente ao Dock 2 e ao Matrice 3D/3TD. Outros fabricantes precisarão passar pelo mesmo processo de certificação junto à ANAC.
O que vem por aí: A evolução regulatória nos EUA tende a influenciar o Brasil, que segue de perto os frameworks da ICAO e da FAA ao atualizar sua própria regulamentação de drones. A expectativa da indústria é que o RBAC 100 — novo marco regulatório aprovado pela ANAC — crie progressivamente categorias mais simples para operações BVLOS de baixo risco, sem a necessidade de autorização caso a caso.
Para operadores de setores como energia, mineração, logística e agronegócio, a hora de estudar os requisitos e começar a montar a documentação é agora.
Fontes: DRONELIFE — DRONERESPONDERS Conference | Futuriste — ANAC autoriza DJI Dock 2 BVLOS | NW Drones — DJI Dock 2 e Matrice 3D aprovados
Mais como este
Artigos Relacionados

DJI revela 25 lançamentos bloqueados pela FCC em 2026
DJI revelou em processo judicial que 25 produtos de 2026 estão barrados nos EUA, com prejuízo de US$ 1,56 bilhão. Entenda o que mu…

Exército adota DJI Matrice 300 RTK como drone padrão
O Exército Brasileiro oficializou o DJI Matrice 300 RTK como drone padrão da Força Terrestre, via portaria, enquanto EUA e aliados…

ICA 100-40: DECEA exige autorização para todos os drones
O DECEA publicou a nova ICA 100-40, que obriga autorização via SARPAS para todos os drones no Brasil a partir de 1º de julho de 20…